A escola que reproduz a desigualdade também é capaz de libertar as consciências

Por Euzébio Jorge



Há alguns meses fui convidado para visitar uma mostra científica e cultural, evento de grande importância na região onde foi realizado, vide a quantidade de pessoas dentro e fora do espaço. A referida mostra possui características muito especiais, começando pela multiplicidade de trabalhos em diversas áreas do conhecimento. Por meio de exposições didáticas, tive contato com trabalhos na área da linguística que me surpreenderam com a diversidade do português falado nos diversas países de influência lusitana e como o português falado no Brasil reafirma o peso cultural e social dos povos africanos e indígenas aqui escravizados.

Visitei uma ala da exposição onde jovens pesquisadores expunham maquetes por eles construídas, afim de demonstrar a diversidade topográfica do território brasileiro. Em outro espaço da mostra, assisti vídeos produzidos por jovens diretores e produtores de cinema que, utilizando os novos meios de comunicação e informação, criaram obras que provocavam risos, surpresa e reflexões. Na área comum do evento ocorreu uma apresentação de músicas percussivas, onde @s músic@s, além de sincronizarem dezenas de instrumentos, ofereciam um show à parte com os malabarismos feitos com as baquetas e os tambores. No mesmo espaço, sob os olhos atentos de centenas de pessoas, foi apresentado uma montagem do texto “Auto da Barca do Inferno”, do dramaturgo do século XVI, Gil Vicente. Algum tempo depois, assisti uma apresentação de dança contemporânea coreana, com bailarinos com diferentes características étnicas.

A mostra em questão possuía outras características especiais, muito distinta das verificadas na maior parte dos encontros científicos e apresentações de música erudita, ele possuía uma surpreendente diversidade étnico-racial. Os atores, atrizes, cientistas, bailarinos e pesquisadores deste evento possuíam majoritariamente traços africanos e indígenas, residiam na periferia de uma grande cidade brasileira e eram filhos de trabalhadores de baixa renda e sem curso superior.

Como a maior parte dos leitores já perceberam, o evento descrito acima não se trata de um congresso científico tradicional, também não corresponde a uma exposição de arte erudita, não é nem mesmo uma reunião da SBPC, que já seria infinitamente mais democrático que os dois primeiros. A mostra científica e cultural que visitei há poucos meses foi uma feira de ciências e cultura de uma escola pública da periferia de Campinas.

A Escola Estadual Professor Carlos Lencastre, onde minha filha estuda, realiza semestralmente um encontro, chamado de Culminância, a fim de permitir o acesso da comunidade para apresentar o que estão estudando e aprendendo. O substantivo Culminância remete ao verbo Culminar, atingir o topo, chegar ao ponto mais elevado e importante de uma trajetória, o que evidencia que para esta comunidade escolar o momento mais importante do processo de aprendizagem é quando os estudantes e professores podem traduzir para a comunidade o conhecimento formal assimilado a partir das vivências e lugar de fala. As deficiências do ensino nas escolas públicas não conseguem esconder três fatos fundamentais, primeiro: a escola é o lócus mais importante de consolidação da vida comunitária nas periferias do Brasil; segundo: os estudantes da periferia possuem desejo e potencial para assimilar e produzir conhecimento formal; terceiro: a escola pública é deliberadamente deficiente, cumprindo o histórico papel de reproduzir as desigualdades em um sistema de ensino polarizado que forma em um extremo uma força de trabalho superexplorada, no outro, uma elite que se aproveita das distorções sociais.

O exemplo apresentado da Culminância da Escola Júlio Lencastre possibilita algumas reflexões e questionamentos. Ainda é impensável uma produção de conhecimento em espaços com maior pluralidade de classes, de gênero e étnico-raciais. Como seria pensar urbanismo na perspectiva dos que moram nas periferias do país, que gastam de 2 a 4 horas por dia em transportes públicos lotados? Como seriam as pesquisas em ciências médicas feitas por pesquisadores que viram as pessoas de suas comunidades morrerem por doenças que poderiam ser extintas com a simples efetivação do saneamento básico? Quais filmes seriam produzidos por cineastas que cresceram vendo a cidade do alto do morro de suas comunidades? Quais economistas defenderiam a reforma trabalhista sendo filho de mãe empregada doméstica e/ou pai cortador de cana? Quais cientistas políticos defenderiam a reforma da previdência vendo seus pais e avôs sustentando grandes famílias com parcas aposentadorias? Qual historiador preto faria oposição as cotas raciais sendo um sobrevivente das chacinas promovidas pela polícia nas periferias do país? Qual gestora pública, que sempre recebeu menos que homens na mesma função, se oporia à construção de políticas de combate às desigualdades de gênero?

A educação oferecida ao povo não é sistematicamente atacada por obra do acaso, existe, por um lado, um objetivo claro de dizer que as pessoas são pobres por que não têm educação e, por outro, responsabilizar estes jovens por seu fracasso escolar e profissional. Como se não bastasse um mercado de trabalho que impõe a ilusão da meritocracia, os preceitos meritocráticos também são impostos via escolas e igrejas. Caso os artistas e cientistas da Escola Lencastre não ingressem em uma universidade pública, toda a responsabilidade por seu “fracasso” é apenas sua, e não de um sistema educacional que não o quer lá.

A escola como locus de construção da vida comunitária na periferia contribui para a constituição de uma identidade; possibilita, ainda que não garanta, o surgimento de elementos socioculturais que não são valorizados pelos grandes meios de comunicação em suas relações mercantilizadas; cria um efeito simbiótico entre o conhecimento formal oferecido pela escola e o saber não formal oferecido por estas comunidades. Porém, não se rompe com a exploração ignorando o conflito fundamental, segundo Dermeval Saviani, no livro Escola e Democracia, “O dominado não se liberta se ele não vier a dominar aquilo que os dominantes dominam. Então, dominar o que os dominantes dominam é condição de libertação” Ainda que a extrema desigualdade seja reproduzida pelo sistema de ensino, ela não é gerada por ele.

A desigualdade reproduzida pela escola é gerada pela contradição entre o capital e o trabalho, irradiando efeitos em todas as dimensões da sociedade capitalista. Constatar que não é a baixa qualidade do ensino público a responsável pela desigualdade e pobreza no país ajuda a desarmar parte dos argumentos privatizantes de setores conservadores, sem retirar da escola sua parcela de responsabilidade na construção de consciências que anseiam por liberdade. Ainda que a escola cumpra seu papel de aparelho ideológico do Estado burguês, a educação pode evidenciar as contradições da sociedade, criar um feixe de luz sobre a alienação imposta pelo trabalho no capitalismo e ajudar a criar os rascunhos de uma sociedade livre da exploração.

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